Tudo que você queria saber sobre os Escravos da Mauá
(e suas fabulosas rodas de samba mensais)
e nunca teve coragem de perguntar...

uma exclusivíssima e auto-referidíssima entrevista
de Nós, com Nós mesmos



O Bloco
Nós - Como é que surgiu o bloco Escravos da Mauá?
Nós mesmos - Ele surgiu pouco antes do carnaval de 1993, como uma idéia de amigos que trabalhavam no INT (Instituto Nacional de Tecnologia, perto da Praça Mauá) e que queriam ter alguma atividade na região, além de trabalhar e tomar chopp no final da tarde.

Nós - Por que um bloco?
Nós mesmos - Alguns de nós já tínhamos participado de concursos de sambas para outros blocos, mas, como não ganhamos, o único jeito foi fazer um bloco pro nosso samba.

Nós - Quais as propostas iniciais?
Nós mesmos - Escolhemos as cores (azul e amarelo) e fizemos uma festa de fundação, cuja ata foi solenemente assinada na ocasião por cerca de 150 pessoas. Dentre os fundadores, vários dos que ainda hoje carregam o piano (Izair, Cristina Lemos, Ricardo Costa, Teresa Guilhon, Claudia Baldarelli, Branca, Zé Maldonado, Deílton, Terezinha, Lea, Roberto Carlos, Jefferson, Cida, Andréa Lessa, Rosangela) e outros que já não conseguem ser tão freqüentes (Euclides, Eduardo, Cirlene, Angela, Atílio, Cristina Brantes, Lilson, Ma. Helena, Peiter, Caio, Domingos). Queríamos um bloco pequeno, formado por amigos, amigos dos amigos e o pessoal que trabalha, mora ou passa por ali. E que os sambas do bloco lembrassem a riquíssima história da região e de seus personagens, sempre de uma forma positiva, alegre e bem humorada.

Nós - Por que o nome "Escravos da Mauá"?
Nós mesmos - Ali na rua Camerino ficavam os mercados de escravos nos séculos XVIII e XIX. Mesmo depois da Abolição, os ex-escravos e as colônias de negros baianos que vieram para o Rio se fixaram no bairro da Saúde, em busca de trabalho no porto e moradia barata (aliás, o morro da Favela - atual Providência - emprestou seu nome ao tipo de moradia que hoje se espalha por toda a cidade). O bairro chegou a ser conhecido como a Pequena África no Rio de Janeiro. Como o bloco foi formado por funcionários públicos - isto é, escravos - daí para o nome foi um pulo.

O lugar
Nós - O que há de especial na história do bairro da Saúde?
Nós mesmos - A história dos bairros portuários cariocas é a história do próprio Rio de Janeiro, embora a maioria dos cariocas não a conheça. Além de toda a questão da cultura negra (estão ali as raízes do choro, do samba, dos ranchos e do carnaval popular), há a história da Rádio Nacional nos tempos de ouro do rádio; a fabulosa Praça Mauá e histórias como a da Revolta da Chibata no porto, cujo líder - João Cândido - foi lindamente homenageado por João Bosco e Aldir Blanc como o "Mestre-sala dos Mares". Isso sem falar da arquitetura do início do século XX, que ainda se pode ver de perto no Morro da Conceição, preservada, basicamente, pelo abandono. A arquitetura, aliás, é um capítulo à parte, pois temos na região construções do século XVIII, como a Fortaleza da Conceição, além do Mosteiro de S.Bento e das diversas Igrejas, a maioria no topo dos morros - do Livramento, da Providência e do Pinto. Todas essas histórias já foram cantadas nos sambas dos Escravos da Mauá, mas sempre falta falar de muita coisa...

Nós - E a Pedra do Sal?
Nós mesmos - A Pedra do Sal é um lugar místico para a cultura negra e para os amantes do samba e do choro. Ela pode ser considerada como o núcleo simbólico da chamada "Pequena África" de que falamos acima. A região em torno da Pedra do Sal era repleta de zungus, casas coletivas ocupadas por negros escravos e forros. Ali se reuniam Donga, João da Baiana, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres - precisa dizer mais? Fica a 100 metros do Largo de S. Francisco da Parinha, onde tocamos, virando ali na esquina do bar do sr. Adão. Na base, há um botequim, no Largo de João da Baiana. É uma pedra, com degraus escavados, por onde se pode subir para o Morro da Conceição, que é um passeio imperdível para qualquer carioca que se preze.

Nós - Por que o Largo se chama S. Francisco da Prainha?
Nós mesmos - A rua Sacadura Cabral marca até hoje a linha original do mar, até onde ele ia antes da construção do Porto, no início do século XX. O mar batia no muro branco da Igreja de S. Francisco da Prainha, que existe até hoje aqui bem pertinho de onde nos reunimos. A atual Praça Mauá, urbanizada na mesma época, ocupa a região que era conhecida como Prainha. A rua do Acre, que faz parte do trajeto do bloco, era o Caminho da Prainha.

O cd-rom
Nós - E o cd-rom CIRCUITO MAUÁ: Saúde, Gamboa e Santo Cristo?
Nós mesmos - Esse foi um trabalho do qual temos o maior orgulho. Foi feito por uma equipe da qual participaram profissionalmente muitos Escravos da Mauá, junto com pesquisadores convidados, liderados pela Eliane, que toca cavaquinho, dirigiu e produziu o cd-rom. Ele nasceu da nossa paixão por aquela região e por tudo que encontramos ali e acabou virando um enorme sucesso. Ganhamos vários prêmios, dentre eles o Prix Mobius América Latina de Multimídia (que nos levou a Paris em outubro/98 para apresentá-lo na etapa mundial do Festival !!!! ), o Top New Media (ADVB-Sp) e o Urbanidade-2000 do IAB-RJ. Até hoje ele nos dá as maiores alegrias...

As rodas de samba
Nós - E as rodas de samba mensais?
Nós mesmos - Até 1997, nós nos reuníamos apenas de novembro a fevereiro, para os ensaios do bloco, que eram animados pelo ainda-não-famoso-mundialmente "Fabuloso Grupo Eu Canto Samba", que aliás ainda nem tinha esse nome. O sucesso das rodas nos fez experimentar mantê-las também fora do período pré-carnavalesco e foi o que se viu: um montão de gente. Tanta, que nos obrigou a modificar o calendário: as rodas aconteciam sempre na última sexta de cada mês, mas como começaram a encher demais, nosso complexo de Peter Pan (não queremos crescer) nos fez adotar as promoções-relâmpago de samba, avisando a data só pelos nossos boletins, por e-mail e correio. Atuamos na contra-mão do sucesso: queremos que, na cidade "SÓ se fale em outra coisa"...

Nós - Quem banca esses eventos? Há algum patrocínio?
Nós mesmos - Apesar de um dos nossos lemas ser "tocar prá gastar dinheiro", chegou um ponto em que até isso ficou inviável. Os eventos cresceram muito e deixaram de ser possíveis apenas com a nossa energia. A mala direta cresceu muito e passou a ser necessário ter um som melhor. Fizemos então uma convocação aos amigos e hoje temos 90 pessoas (incluindo nós, é claro) que bancam as rodas de samba mensais da Mauá: são os nossos queridos "Fabulosos Patrocinadores", que podem ser identificados por suas geladeiras, onde há um belíssimo imã comprovando a adesão. Já a saída do bloco, no carnaval, é bancada unicamente pela venda das camisetas. É com elas que pagamos carro de som, bateria, etc...

Nós - E as canjas?
Nós mesmos - O Samba da Mauá é uma soma de muitas energias. Uma delas são as canjas, que vêm sempre sem cachê. Começam levemente ressabiados com aquele maravilhoso caos a céu aberto e saem, sempre, completamente encantados - e diversas vezes muito emocionados - com a magia do lugar e a animação de todos nós. São um presente sempre muito carinhoso prá gente. Já tivemos conosco canjas que, francamente, são "muita areia pro nosso caminhãozinho": Zé da Velha e Silvério Pontes, Luiz Carlos da Vila, Walter Alfaiate, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Baianinho, Moacyr Luz, Tia Surica, Zé Renato, Macalé, Xangô da Mangueira e Delcio Carvalho prá ficar nos mais famosos... Todos, sem exceção, trouxeram novos amigos e ajudaram a construir o Samba da Mauá.

Nós - E o "Fabuloso Grupo Eu Canto Samba" e suas cabrochas?
Nós mesmos - Como o nome diz, somos uma fábula que, naquele contexto, deu muito certo. Nenhum de nós é músico profissional, mas adoramos o que fazemos. Nos divertimos e tocamos com muito gosto um repertório que estamos sempre garimpando entre as pérolas do samba. Vemos que as pessoas saem felizes. Então, de alguma forma, conseguimos fazer convergir para o Lgo. da Prainha uma coisa maravilhosa e rara, da qual temos um orgulho enorme. As cabrochas são todas "número 1": animadíssimas, não perdem uma e estão sempre prontas a nos ajudar a segurar qualquer imprevisto. Volta e meia nos perguntam o que é preciso para sagrar-se cabrocha da Mauá. A resposta é simples: basta aceitar o cabrochismo em seu coração e freqüentar os eventos. O único problema do "Fabuloso" é que ainda não conseguimos definir o nosso público. A questão reside no masculino de cabrochas. Os meninos resistem em ser cabrôchos, enquanto cabrochas vingativas afirmam que o tal masculino é lábrochas. Pedimos ajuda aos universitários, que nos sugeriram "cabrochas e a rapaziada"... E é o que temos no momento.

O incêndio
Nós - E o caso do incêndio?
Nós mesmos - A gente tocava na varanda do bar da d. Sonia, que ficava na esquina onde a gente toca até hoje. Acima do bar, ocupando toda a lateral de um edifício vizinho, havia um mural pintado, bárbaro, com Pixinguinha, João da Baiana e Donga. Tínhamos o bar como sede social do bloco e foi horrível saber que, poucas horas depois que acabou o nosso samba de agosto/98, o prédio pegou fogo, destruindo completamente o bar da d. Sonia (que nunca mais reabriu) e o mural. Passado o estupor inicial, resolvemos manter as rodas de samba mensais, só que, a partir de então, na rua e sem infra nenhuma. O samba seguinte foi incrível, em frente aos escombros. Mas isso deu origem a duas coisas lindas no carnaval de 99: a camiseta, feita pelo Fernando Braga, sobre uma foto do mural e a um belíssimo samba de resistência feito pelo Zé da Lata e Ricardo: "Quem pensou que o fogo ia se apagar em nós / no Largo da Prainha pode 'inda hoje ouvir a voz / de Donga e Pixinguinha, João da Baiana e outros tantos mais / que acenderam a chama / EU CANTO SAMBA mesmo que acabe o gás !". É isso aí: estamos no "street-samba" até hoje... e permanece o desafio de, um dia, conseguirmos refazer o mural.

Carnaval, samba e camisetas
Nós - Como foi o primeiro samba dos Escravos da Mauá?
Nós mesmos - Ele foi feito pelo Ricardo e se chamava "Navio Negreiro". Era uma analogia entre o navio que chegava com os escravos para o mercado e os outros navios, que mais tarde, passaram a trazer os gringos e os marinheiros, para a alegria das meninas da Praça Mauá. É um samba muito bonito, e enorme: um verdadeiro samba-enredo.

Nós - Como são escolhidos, a cada ano, o samba e a camiseta dos Escravos da Mauá?
Nós mesmos - Ao contrário da maioria dos blocos (que fazem concurso de samba e convidam alguém pra fazer a camiseta), os Escravos da Mauá fazem concurso de camiseta e convidam alguém para fazer seu samba. As razões para isso são de ordem psico-social-geográfica, mas podemos resumí-las, dizendo que damos uma boiada pra evitar qualquer tipo de briga por causa de samba. Quem gosta de um bom arranca-rabo, já tem várias opções pela cidade... Nos Escravos da Mauá, a Velha Guarda da Ala dos Compositores é convocada em caráter emergencial para parir um samba coletivo, com um prazo de várias horas de antecedência (em geral, 24). Nada impediu até hoje, no entanto, que, qualquer pessoa que tenha uma idéia de letra ou de tema musical se integre ao samba coletivo, o que já aconteceu diversas vezes, fazendo a referida Ala dos Compositores crescer a cada ano...

Nós - Quem são as estrelas do Bloco Escravos da Mauá?
Nós mesmos - Nossas estrelas estão na rua, na praça. Na voz da Baldarelli, no rodopio da Branca com a bandeira, na graça da cabrochinha Jessiane dançando, nos Clóvis que descem o morro nos dias de desfile, nos fogos de artifício oferecidos, no início do desfile, pelo pessoal do Cais do Porto e acionados pelo Cilei, irmão do saudoso Juarez do morro da Conceição, na bateria do mestre Penha, no cavaquinho da Eliane, no surdo do Salek, no pandeiro do Pedro, nas cordas e na percussão do "Fabuloso Grupo Eu Canto Samba", na presença assídua e animada dos moradores do Morro da Conceição, na alegria das cabrochas. Nossas estrelas somos nós mesmos. O Largo da Prainha é um chão de estrelas.

Nós - Afinal, aonde quer chegar os Escravos da Mauá?
Nós mesmos - O Escravos não têm um fim, os Escravos são o meio. O que a gente quer é um espaço onde se possa estar próximo, amigo com amigo, sambista de berço com sambista amador. Gente que se gosta, quando junta, faz coisas mais bonitas do que pode prever a nossa vã filosofia. Afinal, são quase quinze anos de bloco. Isso já é um-cinqüenta-avos da história do Brasil. Sem planejar, viramos parte da história da cidade. E, convenhamos, cada vez mais fabulosa será a história do Rio de Janeiro com samba, amor e paz.