Na paisagem, nos valores e nas características da vida nos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo há, ainda, muito da história e da cultura cariocas.

   A região foi sede do antigo mercado de escravos da cidade, berço dos ranchos e do carnaval popular, ponto de encontro de chorões e sambistas como Pixinguinha, Donga e João da Baiana, cenário de revoltas e movimentos sociais urbanos e, finalmente, local onde funcionou a Rádio Nacional, a mais importante emissora da época de ouro do rádio pré-televisivo.

   O Rio de Janeiro entrou no século XX às voltas com sérios problemas sociais. A crise de moradia, agravada nas freguesias do centro, refletia o grande incremento populacional experimentado pela cidade (a população chegava a mais de 800.000 habitantes em 1906) e, particularmente, o aumento da pobreza urbana (os censos revelavam um elevado percentual de pessoas sem profissão definida, desempregadas ou subempregadas). A proliferação de cortiços e casas de cômodos, superlotados e insalubres, aliada aos deficientes serviços de saneamento básico, eram determinantes para a erupção de violentas epidemias de febre amarela, varíola, cólera-morbo e outras moléstias que faziam milhares de vítimas, elevando incrivelmente a taxa de mortalidade nos anos em que eclodiam.

   Tendo como fundo esse painel instável e crítico, o poder público promoveu, entre 1903 e 1906, a mais profunda transformação até então vivenciada pelo Rio de Janeiro, promovendo um ambicioso programa de renovação urbana na cidade que, tratado como uma questão nacional, tinha como finalidade última atrair capitais estrangeiros para o país, então envolto em graves problemas financeiros.

   A essa altura as elites já haviam chegado a um consenso no seu diagnóstico acerca da cidade: a solução para os sérios problemas do Rio estaria assegurada pelo tripé saneamento / abertura de ruas / embelezamento. Era preciso sanear a cidade, alargar ruas, arejar, ventilar e iluminar melhor os prédios, implantar um modelo construtivo mais digno de uma cidade-capital, o que pressupunha demolir as habitações que não obedecessem a esses padrões de salubridade.

   Cargo de confiança do Presidente da República, a Prefeitura do Rio foi entregue a Francisco Pereira Passos, engenheiro de origem aristocrática, com larga experiência em obras públicas, e que estudara em Paris na época das reformas promovidas pelo barão de Haussmann.

   A cidade foi então varrida por um vendaval de obras e providências: a construção do cais do porto (a Avenida do Cais, atual Rodrigues Alves) e da avenida do Mangue (atual Francisco Bicalho), o alargamento de várias ruas e a vacinação obrigatória da população.

   Quarteirões inteiros foram derrubados, surgindo em seu lugar um amplo e elegante bulevar em estilo parisiense: a moderna Avenida Central, atual Avenida Rio Branco. Cerca de 1600 velhos prédios comerciais e residenciais, em grande parte habitações coletivas foram demolidos, estimando-se que a intensa valorização do solo urbano tenha provocado a expulsão de cerca de 20.000 pessoas de baixa renda das freguesias centrais da cidade. Estas, foram reproduzir a superpopulação dos cômodos e a deterioração das condições de higiene nas áreas vizinhas ao núcleo central - Praça Onze (a "Pequena África"), bairros portuários, Catumbi e Cidade Nova e nas primeiras favelas que já começavam a marcar a paisagem dos morros centrais: Providência, Santo Antonio e outros.

   Foi com os trabalhos de "modernização do porto do Rio de Janeiro" - dragagem, construção da muralha do novo cais, obras de aterro da área intermediária e transformação do velho Largo da Prainha na moderna e arborizada Praça Mauá - durante a reforma Passos, que a região portuária converteu-se numa zona definitivamente especializada no contexto urbano carioca, passando a desempenhar, praticamente com exclusividade, a função portuária.

   Poucas áreas da cidade revelam uma mudança tão intensa em seu aspecto físico quanto ela. O aterro de amplas proporções que viabilizou a movimentação portuária provocou uma brutal transformação no aspecto ambiental, provocado pelo feroz avanço do litoral sobre a baía de Guanabara. Embora persista na área uma forte imagem do Rio de Janeiro do século XIX (motivo pelo qual a região é considerada memória e história viva), a rua Sacadura Cabral, linha do antigo litoral, marca, até hoje, a divisa entre dois mundos: o antigo e o "novo", este marcado pelo caráter de grandiosidade inerente aos imensos galpões e armazéns do porto, hoje bastante deteriorados.

   Os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo foram rodeados por um sistema viário totalmente distinto do existente em seu interior. O "novo" envolveu e isolou os morros, tipicamente residenciais, afastando-os da orla. Os caminhos internos perderam importância, tornando preferencial e mais rápida a circulação periférica.

   Ainda hoje, esse caráter marca a Zona Portuária. Por ela e sobre ela foram lançadas algumas das mais significativas ligações viárias da cidade. Rodeada por viadutos e avenidas de trânsito pesado (Presidente Vargas, Rio Branco, Rodrigues Alves e Francisco Bicalho), a visibilidade da região hoje se restringe ao rápido olhar de quem passa e a reconhece apenas pelo porto, pelos morros e pelo cinza de seus grandes armazéns.

   No entanto, foi esse isolamento forçado que ajudou a conservar os bairros portuários cariocas. Uma vez construídas, aquelas formas antigas se cristalizaram, preservando, em sua imagem, a história da cidade.


O cd-rom CIRCUITO MAUÁ: SAÚDE, GAMBOA E SANTO CRISTO traz a versão integral do texto "Navegando pela História" redigido por Sérgio Lamarão, ilustrado por centenas de fotos obtidas junto a diversos acervos.





Foto:
Vista aérea da cidade, mostrando claramente a nova área aterrada para abrigar o porto mas ainda sem os armazéns e prédios públicos que seriam construídos nos anos seguintes. A rua Sacadura Cabral, antiga Rua de São Francisco da Prainha marca a linha do litoral anterior ao aterro. (Revista careta, no. 640 / ABI - Associação Brasileira de Imprensa / RJ)