" (...) os combustores de iluminação partidos, com os postes vergados, estavam imprestáveis; os vidros quebrados brilhavam na calçada; paralelepípedos revolvidos, que serviam de projéteis para essas depredações, coalhavam a via pública; em todos os pontos, destroços de bondes incendiados, portas arrancadas, colchões, latas, montes de pedras, mostravam os vestígios das barricadas feitas pelas multidões agitadas."

(O Paiz, novembro/1904)

   Assim descreveu o jornal "O Paiz" a revolta da Vacina, que sacudiu a cidade do Rio de Janeiro no início do século. A cidade de então amargava terríveis epidemias de febre amarela, tifo, tuberculose, peste bubônica e cólera.

   Com o propósito de embelezar, sanear e "civilizar" o Distrito Federal, o Prefeito Pereira Passos submetia a cidade a uma impressionante reforma urbana, aplaudida pelas classes média e alta, porém extremamente sofrida para a população pobre que residia nos antigos cortiços do centro da cidade.

   Nesse contexto, a imposição da vacina, sem o devido esclarecimento à opinião pública, foi um desastre: posivistas se manifestaram contra a "violação da liberdade individual"; grupos oposicionistas protestaram contra a vacina e também contra o preço dos bondes, dos trens e do gás.

   No dia 10 de novembro de 1904, após a publicação do decreto que tornava obrigatória a vacinação, focos de revolta explodiram em toda a cidade, envolvendo estudantes, operários, militares e líderes da oposição. Na praça da Harmonia, no bairro da Saúde, ficou famosa a barricada de Porto Arthur, liderada pelo valente capoeirista e estivador Prata Preta.

   A Revolta da Vacina teve, segundo a polícia, 23 revoltosos mortos e 67 feridos, tendo sido presas 945 pessoas, das quais quase a metade foi deportada para o Acre, onde foram submetidas a trabalhos forçados.

   "O governo tem que acabar com os castigos corporais, melhorar nossa comida e dar anistia para todos os revoltosos. Senão, a gente bombardeia a cidade, dentro de 12 horas." (João Cândido, líder da Revolta da Chibata, em 1910)

   Na noite de 22 de novembro de 1910, marinheiros reagiram aos castigos físicos (chibatadas) a eles impostos e deram início, na baía de Guanabara, ao episódio que ficou conhecido com a Revolta da Chibata: 200 marujos se amotinaram, mataram 4 oficiais, levaram 7 navios para fora da barra (entre eles os encouraçados São Paulo e Minas Gerais) e ameaçaram bombardear a cidade.

   O governo, pego de surpresa, aceitou as exigências dos amotinados e prometeu a anistia aos revoltosos. No entanto, tão logo os marinheiros depuseram as aramas e devolveram os navios, o governo os traiu: expulsou alguns, prendeu ou fuzilou outros. Quase uma centena de marinheiros foi embarcada a força em um navio rumo à Amazônia, para trabalhos forçados nos seringais.


Sessenta anos mais tarde, João Cândido, o líder da Revolta da Chibata, foi homenageado por João Bosco e Aldir Blanc com a música "O Mestre-Sala dos Mares", presente no cd-rom CIRCUITO MAUÁ: SAÚDE, GAMBOA E SANTO CRISTO que traz a íntegra do texto "Movimentos Sociais no Porto do Rio (1890-1920)", redigido por Carlos Augusto Addor.





Foto:
. Bonde virado por populares na praça da República, durante a Revolta da Vacina, em 1904. Revista da Semana, 27/11/1904 (ABI)