A Praça Mauá e seus arredores vivenciaram com intensidade os tempos áureos do rádio pré-televisivo, época em que essa "caixa maravilhosa" era a maior, senão a única, forma de informação e lazer conjugados para uma parte significativa da população.

   De um lado da Praça ficava a Rádio Mayrink Veiga, no ar desde 1926 e campeã de audiência carioca durante toda a década de 30. Do lado oposto, já na década de 30, surgia a irmã caçula de um império jornalístico: a Rádio Tupi, "o Cacique do ar", emissora pertencente ao grupo dos Diários Associados, que iniciou suas atividades como a segunda mais potente emissora da América do Sul.

   Em 1936, o foco das atenções volta-se para a própria Praça Mauá, quando, nos últimos andares do famoso edifício "A Noite", têm início as transmissões da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a mais poderosa emissora brasileira das décadas de 40 e 50.

   Circulava na Praça todo tipo de pessoa. A estação rodoviária Mariano Procópio trazia os viajantes locais, e o porto, os visitantes estrangeiros e os marinheiros, ávidos por descanso e diversão. Para as rádios, vinham os artistas, o público e um sem-número de trabalhadores. Para atender a esse conjunto de transeuntes, vinham os táxis e os prestadores de diversos serviços, inclusive os contrabandistas. À medida que a noite se aproximava, um novo grupo tomava a cena. Era à noite que se abriam os cabarés, as casas de dança, os restaurantes e a prostituição tomava conta do cenário. A Praça nunca foi considerada um lugar violento: as ocorrências limitavam-se, na maioria das vezes, a pequenos furtos e aos "contos-do-vigário".

   Os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo são também conhecidos como tradicionais redutos do samba e do carnaval popular. Parte da famosa comunidade baiana ligada ao samba, às macumbas e aos ranchos morava espalhada por esses tres bairros, que foram berço de muitas agremiações carnavalescas dos mais diversos tipos: cordões, ranchos, frevos, blocos, clubes, escolas de samba e até um grupo de Afoxé. Saúde e Gamboa inauguraram uma tradição na criação de Ranchos. No final do século XIX, o baiano Hilário Jovino Ferrreira fundou o primeiro "rancho baiano", o "Rei de Ouros", em sua casa, na rua João Inácio no. 17, no bairro da Saúde.

   O cd-rom CIRCUITO MAUÁ: SAÚDE, GAMBOA E SANTO CRISTO traz a íntegra do texto "Folia na Praça Mauá: Rádio Nacional, Boemia e Carnaval", redigido por Lia Calabre, ilustrado por fotos de diversos acervos e pelos seguintes depoimentos e apresentações gravadas em vídeo:

  • d. Aurora Miranda, cantora do elenco da Rádio Mayrink Veiga e irmã de Carmem Miranda, contando sobre a época de ouro do rádio pré-televisivo;
  • Escola de Samba Vizinha Faladeira, uma das primeiras do Rio de Janeiro, durante ensaio em sua quadra situada no bairro do Santo Cristo, próxima à Rodoviária Novo Rio;
  • Afoxé Filhos de Gandhi saindo de sua sede no bairro da Saúde, na rua Camerino no. 9, e durante caminhada pelos becos e ladeiras do morro da Conceição;
  • "Escravos da Mauá" no carnaval de 1997. O "Escravos da Mauá" é um bloco carnavalesco que, desde 1993, se reúne no Largo de S. Francisco da Prainha, na rua Sacadura Cabral e desfila pelas ruas da Saúde na quinta feira que antecede o carnaval, com sambas que lembram a história e a tradição carnavalesca da região;
  • Grupo Reis do Congo, de Bumba-meu-boi, durante apresentação no Largo de S. Francisco da Prainha, no bairro da Saúde, em evento organizado pelo bloco Escravos da Mauá no carnaval de 1997.
  • Sr.Zulmiro, morador do morro do Pinto, durante muitos anos mestre-sala do bloco "Unidos do morro do Pinto".
  • d. Ruth, moradora da Saúde, contando sobre os "banhos-de-mar-à-fantasia" dos carnavais de antigamente


O cd-rom CIRCUITO MAUÁ traz ainda, gentilmente cedidas pela Rádio Nacional, as vinhetas originais de vários programas da emissora que marcaram época, como o "Repórter Esso" ("o primeiro a dar as últimas"), "O Sombra", "Balança-mas-não-cai", as radionovelas "Em busca da Felicidade" e "O direito de Nascer" , além do próprio prefixo da emissora.





Fotos:
. Programa Paulo Gracindo na Rádio Nacional, na década de 1960. Foto cedida pela Rádio Nacional para o projeto Circuito Mauá.
. O bonde da Praça Mauá (13/7/1956) - Arquivo Nacional