Na contramão dos processos de valorização e investimento, os bairros portuários cariocas chegam ao fim do século XX com uma característica de autenticidade quase única na cidade. Essa autenticidade é a principal fonte do interesse dos estudiosos e pesquisadores que começaram a descobrir a Zona Portuária. Foi esse sentimento coletivo que estimulou o movimento de defesa da área na década de 1980, fortalecendo-a para fazer frente às bruscas mudanças apresentadas, à época, como iminentes.

   Aos tombamentos de Igrejas, Fortaleza da Conceição e Palácio Episcopal, realizados nos anos 30, foi acrescida, por decreto, a preservação do conjunto de ruas e edificações, bem como de exemplares menos convencionais como a Pedra do Sal, diversas pinturas de parede em botequins, escadarias, casas comerciais e cortiços criados no século XIX, então devidamente alçados como dignos representantes da memória urbana carioca, por revelarem como e de que modo se construíram, ao longo de nossa história urbana, a relação e o diálogo dos bairros portuários com a cidade.

   A Zona Portuária é um dos poucos locais da cidade onde as formas de uso residencial guardam a autenticidade do momento de sua produção, numa afirmação da existência de uma memória viva do "morar carioca". São muitas as moradias coletivas - os chamados cortiços ou "cabeças-de-porco". São muitas as casas isoladas, pequenas, sem grande luxo, algumas prolongando-se por uma área descoberta - o quintal. De estilo simples, pintura muito colorida e santo de devoção na fachada, são encontradas em quase todas as ruas dos morros que compõem a paisagem, caracterizando, melhor que qualquer análise, a relação não perdida com a origem portuguesa do chamado "bairro alto".

   Percorrendo as suas inúmeras ruas, ladeiras, travessas e becos, ainda podem ser encontradas muitas vilas, avenidas ou pequenos edifícios, dois conjuntos residenciais e a primeira favela da cidade - a da Providência, com um século de existência.

   Embora situados a muito poucos minutos do burburinho da Praça Mauá e da própria Avenida Rio Branco, um dos maiores eixos de circulação do centro da cidade do Rio de Janeiro, os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo refletem, pela vida de sua população, uma significativa distância comportamental do restante da cidade, revelada em hábitos, padrões de comportamento e formas de uso do espaço público não mais encontrados no restante da cidade. A imagem de calma e tranqüilidade é transmitida pela permanência das festas coletivas, das cadeiras nas calçadas e das conversas nos fins de tarde.

   Dos moradores do lugar destacam-se Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros, nascido no morro do Livramento e João da Baiana, compositor e percussionista carioca, introdutor do pandeiro no samba.


O cd-rom CIRCUITO MAUÁ: SAÚDE, GAMBOA E SANTO CRISTO traz depoimentos em vídeo de moradores como d. Ruth, do bairro da Saúde; Sr.Alexandrino, do morro da Conceição; sr. Vavá, do morro do Livramento e sr. Zulmiro, do morro do Pinto. Traz também um belíssimo ensaio fotográfico realizado por Alberto Jacob especialmente para este trabalho, além da íntegra do texto "O Espaço Urbano e as Pessoas do Lugar", redigido por Nina Rabha.





Fotos:
. Pedra do Sal, uma das subidas para o morro da Conceição
. Largo de S. Francisco da Prainha, na rua Sacadura Cabral
 (ambas de Alberto Jacob, para o projeto CIRCUITO MAUÁ)