Na construção de Copacabana, desde o seu início, havia qualquer coisa de diferente, de alternativo, de oposição, de novidade, de modernidade. Quando o areal ainda era realmente um deserto, no final do século XIX, a cidade existente era considerada velha, suja e pestilenta; e o novo arrabalde era a opção nova e saudável. Quando as arquiteturas da cidade existente eram, fora algumas igrejas e palácios, basicamente as casas térreas e os sobrados, sempre colados uns aos outros, em Copacabana se construíam grandes casas com generosos afastamentos. Quando outros bairros já apresentavam casas com recuos e afastamentos, em Copacabana se construíram arranha-céus. Quando morar significava habitar de modo tradicional, como sempre, como todo mundo morava, em Copacabana já havia um modo de vida moderno.

    Copacabana não seria o mito que é se não tivesse sido construída do jeito que foi. Ela foi, desde cedo, um foco de inovação. Em matéria de construções, o bairro foi construído, destruído e reconstruído várias vezes; em cada fase, algumas casas, ou prédios, ou modos de morar, ou modos de viver, marcaram época. Copacabana não seria o que é se houvesse continuado apenas como uma praia bucólica com choupanas de pescadores e romeiros; ou como um grande sanatório onde os adoentados que procuravam os frescos ares salitrados se distribuíam em casas de saúde e casas de veraneio; ou como o arrabalde litorâneo onde as classes médias procuravam construir suas novas casas em um ambiente salubre em vez de nas áreas empesteadas junto ao centro; ou como o novo bairro em que os arranha-céus e os edifícios de apartamentos anunciavam um novo modo de vida; ou mesmo se fosse visto apenas como um "êrro urbanístico" produzido pela especulação imobiliária. Copacabana foi tudo isso e muito mais. Viveu intensas mutações. As suas diversas construções e reconstruções ajudaram a formar o mito Copacabana, mas, reconstruindo a construção do bairro, podemos desconstruir esse mito: Copacabana não mais engana.





Você acaba de ler a Introdução do texto "Desconstruindo a construção do bairro e do mito", redigido especialmente para o cd-rom CIRCUITO COPACABANA pela arquiteta e urbanista Lílian Fessler Vaz e pela geógrafa Elizabeth Dezouzart Cardoso.

O texto completo, presente no cd-rom e amplamente ilustrado por fotografias antigas e atuais, cartões postais, anúncios de apartamentos nos "arranha-céus" da época do "boom imobiliário" de Copacabana e ilustrações da Revista Fon-Fon, traz ainda os capítulos:

  • DE COMO UM AREAL DESERTO PODE VIRAR BAIRRO (1892 a 1920)
  • OS "ARRANHA-CÉOS": UM NOVO ESPAÇO EDIFICADO E UM NOVO MODO DE VIDA (1920-1940)
  • O BOOM IMOBILIÁRIO: CONSTRUÇÃO DO MITO (1940-1960)
  • SATURAÇÃO E DECADÊNCIA SEM PERDER A FAMA (1960-2000)