Quem é cantor ou músico popular brasileiro de sucesso e nunca se apresentou em Copacabana levante o dedo.

   Ninguém, provavelmente. E se suprimíssemos da pergunta acima a palavra "brasileiro", ainda assim muita, muita gente famosa deste planeta continuaria com a mão para baixo. Copacabana já viu de Frank Sinatra a Dona Ivone Lara, de João Gilberto a Rod Stewart, de Jacob do Bandolim a Charles Aznavour, de Ella Fitzgerald a Roberto Carlos...

   Porque a primeira e a maior seqüência de apresentações de astros da música internacional no Brasil aconteceu no Golden Room do Copacabana Palace, nas décadas de 1940 e 1950. Porque a bossa-nova nasceu, cresceu e apareceu em Copacabana. Porque as maiores festas de réveillon do mundo acontecem em Copacabana.

   Prepare-se para, no cd-rom CIRCUITO COPACABANA, visitar estes acontecimentos todos e conhecer suas personagens, com seus dramas e seus casos engraçados. E até para entender um pouco do mistério de Copacabana: por que o bairro foi o centro de tudo durante várias décadas.

   A seção CopaMUSICAbana traz a íntegra do texto redigido pelo pesquisador Jorge Salek Aude, ilustrado por depoimentos de Billy Blanco, Braguinha, Clovis Bornay, Maneco Müller, Mario Telles, Miele, Roberto Menescal e Sergio Cabral e organizado nos seguintes capítulos:

  • Golden Room
  • Braguinha, Dick Farney e a princesinha do mar
  • A boemia da década de 1950
  • Tom Jobim, Billy Blanco e a Sinfonia do Rio de Janeiro
  • Peripécias de Sylvia Telles & Candinho
  • Johnny Alf e a boate do hotel Plaza
  • Dolores Duran e a poética feminina
  • A "academia" de Carlos Lyra e Menescal
  • O apartamento de Nara Leão
  • João Gilberto e a invenção da Bossa Nova
  • O Beco das Garrafas
  • Bossa Nova show
  • Antônio Maria, Dolores Duran, Newton Mendonça, Sérgio Porto: os cardispliscentes
  • Opinião
  • Roda-Viva
  • Roda de samba no teatro
  • Réveillon: show à beira-mar
Dois deles você pode conhecer aqui mesmo, clicando sobre seu título.
Os demais, só no cd-rom...


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1. A boemia da década de 1950
   Tradicionalmente, a capital da vida noturna do Rio era a Lapa, tendo a praça Onze, a praça Mauá e os dancings da Cinelândia como centros coadjuvantes. A partir do final da década de quarenta, teve início uma cisão sociogeográfica na boemia: os noctívagos grã-finos e os intelectuais migraram progressivamente para Copacabana, onde podiam freqüentar boates à meia-luz, que ofereciam bebidas finas e música romântica isenta de batucada. Elegância e conforto. É verdade que brigas continuaram a acontecer - noite é noite e bêbado é bêbado em qualquer lugar -, mas de menor periculosidade do que aquelas que eram travadas entre malandros, prostitutas, cafetinas, gigolôs e a polícia, não raro adereçadas por navalhas e revólveres.

   Havia mais ricos do que antes no Rio. A Segunda Guerra Mundial fora lucrativa para o Brasil, que obtivera grande quantidade de divisas com a exportação de minério e outras matérias-primas. Como é praxe na nossa história, os beneficiados foram uns poucos, mas o suficiente para ampliar a classe rica urbana. Eram esses privilegiados, essencialmente, os freqüentadores das boates elegantes. Também eram bem-vindos jornalistas espirituosos como Antônio Maria, Millôr Fernandes e Sérgio Porto, mesmo não sendo ricos. Assim congraçada, a nova classe de boêmios da zona sul ganhou o apelido de café-soçaite.

   Ao lado das boates elegantes, havia também aquelas com preços mais acessíveis, cujo superlativo eram os chamados inferninhos, boates muito pequenas e barulhentas, algumas incluindo a prostituição entre as suas atrações. Fosse qual fosse a categoria da boate, a música sempre figurou entre os itens mais importantes das programações.

   Os músicos do Rio tinham perdido mercado com o fechamento dos cassinos, em 1946. Foram achar trabalho nas boates de Copacabana, que se multiplicavam. Foi então que os artistas do rádio inauguraram o hábito de se encontrarem para bater papo em Copacabana. A Cantina Sorrento, no Leme, e o Maxim's, um bar de portas fechadas na esquina da rua Hilário de Gouveia com a av. Atlântica, foram os pontos escolhidos para a esticada depois do trabalho na boate.

   A primeira boate campeã em prestígio foi o Vogue, que esteve em atividade entre 1946 e 1955, na av. Princesa Isabel. Era um templo ao requinte, freqüentado por figuras ilustres como Benjamim Vargas, irmão do presidente, Teresa e Didu Sousa Campos, Lili e Horácio Carvalho, os Mayrink Veiga. Mas seu prestígio devia muito também aos músicos e cantores contratados para animar as noites. Dos quais o mais assíduo (de todas as noites) era o pianista austríaco Sacha Rubin, que sempre saudava a chegada dos habitués com a canção preferida de cada um deles: Solitude para Jacinto de Thormes, Invitation para Lourdes Catão, Never let me go para Beki Klabin.

   Foi no Vogue que Araci de Almeida promoveu a definitiva revalorização de Noel Rosa, que andava esquecido desde sua morte em 1937. Ela ressuscitou quase toda a obra de Noel, e a aprovação do público do Vogue estimulou gravações novas que não pararam mais. Foi também no Vogue que Araci saiu no tapa com outra estrela do rádio que também cantava lá, Linda Batista. (Não se sabe por quê.)

   Além de Araci e Linda, cantaram no Vogue, entre outros, Sílvio Caldas, Jorge Goulart, Inesita Barroso, Dolores Duran e Ângela Maria. No início da década de 1950, o Vogue contratou uma cantora francesa chamada Patachou, que tinha por hábito sentar-se no colo dos senhores enquanto cantava e cortar-lhes a gravata com uma tesoura. Certa vez, o agraciado era o dr. Fábio Barreto, neto do ex-presidente Antônio Carlos e futuro procurador da república. Já bêbado, ele recepcionou Patachou abrindo a braguilha, expondo o membro viril e desafiando a cantora a cortá-lo em vez da gravata. Como ela, não se fazendo de rogada, encaminhasse a tesoura em direção à genitália do doutor, ele mais que depressa recolheu-a, sob apupos gerais.

   Era uma farra, o Vogue. Tudo acabou num incêndio em agosto de 1955.

   O café-soçaite mudou-se então para outra boate ainda mais sofisticada que despontou no Leme (rua Antônio Vieira): o Sacha's, o nome homenageando o famoso pianista que para lá se transferira. Uma noite, Sacha Rubin acompanhava o crooner Murilinho de Almeida em Ninguém me ama, de Antônio Maria, famoso samba-canção cuja primeira estrofe diz: "Ninguém me ama, / ninguém me quer, / ninguém me chama / de meu amor". Terminado o número, o próprio Antônio Maria, grande noctívago, levantou-se de sua mesa, agradeceu, mas acrescentou que a letra admitia uma pequena correção. Foi até o microfone e cantou: "Ninguém me ama, / ninguém me quer, / ninguém me chama / de Baudelaire". Era uma autoparódia auto-irônica que ficou famosa pela comparação ressentida com o poeta francês Charles Baudelaire, que de fato tinha sido, como Antônio Maria era, um propalador da melancolia romântica e da tragédia do destino humano, só que, evidentemente, muito mais célebre.

   Há quem afirme que esse episódio não aconteceu no Sacha's, mas no Michel (rua Fernando Mendes). Talvez tenha ocorrido em mais de um lugar, com pequenas variações. Afinal, todo pianista de boate atacava de Ninguém me ama quando via Antônio Maria chegar.

   Mas nem todo mundo gostava de Ninguém me ama. Ary Barroso, por exemplo, criticava-a junto com o samba-canção em geral, porque achava o gênero parecido com o bolero, e portanto não-brasileiro. Se bem que ele próprio compôs Risque e Folha morta, que outra coisa não eram senão sambas-canções. Mas a objeção de Ary tinha lá seu fundamento. O samba-canção representava, realmente, uma desnacionalização do samba, ao adaptá-lo à dança de salão e aos ambientes de boate, despojando-o do vivaz ritmo tradicional e dos instrumentos típicos. Era samba com acompanhamento de violinos.

   Ary e Antônio Maria eram amigos mas viviam trocando farpas. Esse diálogo, segundo alguns depoimentos, aconteceu na Fiorentina (av. Atlântica, no Leme); segundo outros, num quarto de hospital onde Ary, acamado, recebeu a visita de Maria. De qualquer forma, merece ser revivido. Foi mais ou menos assim:

Ary Barroso:
Maria, qual é o meu maior sucesso?

Antônio Maria:
Seu maior sucesso... Aquarela do Brasil, acho.

Ary:
Então canta um trecho dela pra mim.

Maria:
Hein? Cantar?!

Ary:
Por favor, só um trecho.

Maria:
(suspiro) Brasiiil, meu Brasil brasileeeiro, meu mulato inzoneeeiro, vou cantar-te nos meus veeersooos...

Ary:
Obrigado. Obrigado. Agora me pergunta qual é o teu maior sucesso.

Maria:
Ora essa, Ary...

Ary:
Pergunta, rapaz.

Maria:
(suspiro profundo) Ary, qual é o meu maior sucesso?

Ary:
É Ninguém me ama, sem dúvida. Agora pede pra eu cantar um trecho.

Maria:
Ah, quê isso, Ary. Chega.

Ary:
Pede, vai.

Maria:
(cara de santimonial resignação) Ary, canta um trecho de Ninguém me ama, por favor?

Ary:
Pois eu não sei. (risada) Não sei! (gargalhada) NÃO SEI!!!

    Mas os tradicionalistas não eram os únicos a repudiar Ninguém me ama e o samba-canção em geral. Os moderninhos, cuja presença na noite de Copacabana se ampliava progressivamente ao longo da década de 1950, não se conformavam com aquelas letras macambúzias e carregadas. Os jovens músicos estavam compondo canções com letras leves e sutis. Nada de sofrimentos irreparáveis. Johnny Alf, Antônio Carlos Jobim, Newton Mendonça e Vinícius de Moraes foram os primeiros, mas depois muitos outros lhes seguiram os passos. A interpretação das músicas, mesmo as com letra dor-de-cotovelo, era discreta, na linha inaugurada por Dick Farney ao gravar Copacabana ("princesinha do mar"), de João de Barro e Alberto Ribeiro, em 1946. Nada se dramas patéticos. Lúcio Alves, Johnny Alf, Dolores Duran, Sylvinha Telles, Tito Madi, Marisa "Gata Mansa" (e mesmo Nora Nei, lançadora de Ninguém me ama). E depois muitos outros.

    Esse conflito refletia uma mudança de modelo cultural da elite brasileira. Ela sempre importou padrões culturais, mas agora estava trocando de fornecedor externo. Tradicionalmente, o Rio de Janeiro era uma cidade de índole francesa. A geração de Antônio Maria sofreu forte influência do existencialismo europeu, que traduzia o pessimismo decorrente da devastação da Europa pelas duas grandes guerras do século vinte. O derrotismo dor-de-cotovelo do samba-canção tinha cara de Sartre, Jean Gabin, Edith Piaff. Era chique sofrer, havia uma certa ostentação de melancolia amarga. Já a nova geração identificava-se mais com o grande vitorioso das duas guerras, os EUA, que acabavam de consolidar sua hegemonia econômica no mundo. É verdade que a influência do american way of life já estava presente no Brasil desde a década de 1920, principalmente por causa do cinema, e a influência da música americana vinha da mesma época, por causa do jazz. Mas agora essas influências tornavam-se dominantes. A jovialidade das letras modernas expressava um otimismo de vencedor. O jeito suave e intimista de cantar inspirava-se no dos crooners das orquestras americanas. As melodias eram cada vez mais refinadas, e as harmonias jazzisticamente sofisticadas. Esse novo estilo de compor e interpretar estava destinado a empolgar a classe média carioca. Quando assumiu forma mais definida, chamou-se Bossa Nova, ganhou terreno na noite dos últimos de 1950 e predominou sobejamente nos primeiros da década de 1960.



Fontes:
Joaquim Ferreira dos Santos, Antônio Maria, coleção Perfis do Rio, Relume-Dumará, 1996; Maria Izilda Santos de Matos, Dolores Duran / experiências boêmias em Copacabana nos anos 50, Bertrand Brasil, 1997.



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2. O Beco das Garrafas
    Entre dois edifícios vizinhos da rua Duvivier, os de números 21 e 37, há um corredor sem saída delimitado pelas respectivas laterais. Desde a década de 1950, a lateral do 37 abriga no térreo uma sucessão de boates que apresentam música, geralmente ao vivo, não sendo raro algumas delas dedicarem-se também à prostituição e a shows eróticos. Naqueles primeiros tempos, os moradores dos apartamentos costumavam reagir à zoeira noturna arremessando garrafas vazias nos freqüentadores das boates. Isso induziu o jornalista Sérgio Porto a apelidar o local de Beco das Garrafadas, nome posteriormente simplificado para Beco das Garrafas. Felizmente, os arremessadores tinham péssima pontaria, porque não consta que alguém tenha sido ferido por qualquer daqueles projéteis. E o Beco das Garrafas veio a se tornar a capital mundial da Bossa Nova, no auge (do Beco e da bossa).

    O auge começou em 1961, quando havia quatro boates: Little Club, Baccara, Bottle's Bar e Ma Griffe, todas pequenas, apertadas e enfumaçadas. A Ma Griffe estava mais para a prostituição; já as outras três apresentavam espetáculos produzidos com parcos recursos mas muita criatividade, bom gosto e alta qualidade musical. Principalmente o Little Club e o Bottle's, que tinham proprietários comuns - os irmãos italianos Alberico e Giovanni Campana - e onde os chamados pocket shows eram criados pela dupla Miele & Bôscoli, que operavam milagres de inventividade naqueles espaços exíguos ("Dê-nos um elevador e nós lhe daremos um espetáculo").

    Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli bolavam o show, escreviam o roteiro e recrutavam os músicos. Dirigiam o espetáculo, cuidavam do som e da iluminação (com um único spot e canudos de papel higiênico) e projetavam slides. Tudo isso regado a uísque - gratuito, era sua única remuneração, e cowboy, porque, como nenhuma das boates tinha geladeira, os donos reservavam para a clientela as pedras de gelo que compravam. O artifício de que Miele e Bôscoli lançavam mão para poderem beber on the rocks de vez em quando era conchavar com o pianista Sérgio Mendes algumas introduções bem estrepitosas que lhes permitissem tirar lascas dos blocos de gelo sem que os patrões ouvissem.

    Sérgio Mendes nem desconfiava que um dia seria um megastar. Na época, ele era um jovem pianista de vinte anos que até pagava para tocar, embora tocasse muito bem. Era a revelação do Beco, que ele tinha começado a freqüentar por volta de 1960, nas matinês de domingo.

    Porque além dos espetáculos noturnos, no Little Club aconteciam vesperais domingueiras de jazz e Bossa Nova, nas quais músicos amadores e profissionais tocavam de graça para jovens que entravam também de graça (mas pagavam pelos cuba-libres). Para os músicos, o atrativo era tocar o que gostavam, improvisando e trocando experiências. Foi assim que tais canjas tiveram a participação de uma plêiade de artistas já ou futuramente famosos, como os pianistas Sérgio Mendes, Luís Eça, Luís Carlos Vinhas, Salvador e Tenório Jr., os trombonistas Raul de Souza e Ed Maciel, os saxofonistas T. Meireles, Cipó e Paulo Moura, os gaitistas Maurício Einhorn e Rildo Hora, os violonistas Baden Powell e Durval Ferreira, os contrabaixistas Tião Neto, Manuel Gusmão e Bebeto e os bateristas Dom Um, Edson Machado, Airto Moreira, Wilson das Neves, Chico Batera, Vítor Manga e Hélcio Milito.

    Assim como Sérgio Mendes, que formou um sexteto com Juarez Araújo (sax-tenor), Aurino Ferreira (sax-barítono), Maciel (trombone), Tião Neto (baixo) e Vítor Manga (bateria), outros músicos oriundos das vesperais domingueiras invadiram a noite do Beco. No final de 1961, o Tamba Trio lançou a moda dos trios instrumentais, com Luís Eça no piano, Bebeto no contrabaixo (às vezes na flauta) e Hélcio Milito na bateria, e os três cantando em um ou outro número. Mas o trio que sobressaiu em seguida, já em 1962, era exclusivamente instrumental: o Bossa Três, com Luís Carlos Vinhas (piano), Tião Neto (contrabaixo) e Édson Machado (bateria). Outros músicos, como os pianistas Salvador e Tenório Jr. e os bateristas Édson Machado e Mílton Banana, também formaram seus trios, a maioria deles efêmeros. Mas onde a moda dos trios instrumentais pegaria mesmo para valer, nos anos seguintes, seria em São Paulo: Zimbo, Sambalanço, Walter Wanderley, Manfredo Fest, Pedrinho Mattar, Jongo (também vocal), Eli Arcoverde, Bossa Jazz e muitos outros. A Bossa Nova que esses trios faziam (tanto no Rio como em São Paulo) era muito diferente daquela música suave e intimista, à base de voz e violão, que tinha sido concebida por Jobim, João Gilberto, Menescal, Carlos Lyra e demais genitores. Era um quase jazz, cheia de improvisações, vibrante, barulhenta e onde os bateristas se esbaldavam. Talvez tenha sido por isso que João Gilberto, que detestava baquetas, jamais pôs os pés no Beco das Garrafas.

    Quem pôs os pés lá, por incrível que pareça, foi um dos arquiinimigos da Bossa Nova, o jornalista, cronista e compositor Antônio Maria (Ninguém me ama, Valsa de uma cidade, Manhã de carnaval etc.). Mas não para ouvir música, isso não. Ele foi disposto a resolver com o também jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli (Lobo bobo, O barquinho, A volta etc.) uma rixa que se arrastava havia tempos pelas páginas dos jornais em torno da Bossa Nova. Antônio Maria criticava principalmente as letras "frívolas, vazias ou sem sentido", e Bôscoli retaliava criticando as canções derrotistas e depressivas de Maria. Ultimamente, Bôscoli andava caçoando também da sua obesidade e ainda acrescentava um tempero acintosamente racista, já que Maria era meio amulatado: chamava-o de Galac, nome do primeiro chocolate branco lançado no mercado brasileiro.

    Encontraram-se na porta do Little Club. Antônio Maria passou uma descompostura em Bôscoli, que reagiu à altura. O tom foi subindo e o próximo estágio seria, fatalmente, o pugilato. De um lado, Antônio Maria, peso-pesado e credenciado por alentadores antecedentes em matéria de vias de fato; do outro lado, Ronaldo Bôscoli, peso-leve e pouco versado em sopapos. Massacre à vista. Eis senão quando surge Aloísio de Oliveira.

    Ex-integrante do Bando da Lua, conjunto que acompanhou Carmem Miranda em sua vitoriosa temporada nos EUA, e também compositor (parceiro de Jobim em Dindi e Inútil paisagem, por exemplo), Aloísio era, além disso tudo, amigo de Antônio Maria e diretor da Elenco, gravadora especializada em Bossa Nova. Aquela briga não lhe convinha absolutamente. Assistia à cena a poucos metros e a princípio até se divertia com o bate-boca, mas, ante sua perigosa evolução, resolveu intervir. Então aproximou-se dos dois, abriu a braguilha, sacou o balangandã e pôs-se a urinar publicamente, fazendo pontaria certeira no sapato 43 de Antônio Maria. Concluída a desconcertante operação, transcorreram alguns instantes de silêncio e perplexidade, seguidos da surpreendente reação de Maria: uma fragorosa gargalhada. Acabaram entrando os três abraçados no Little Club para tomar um uísque. Final feliz do episódio, mas não da malquerença Maria - Bôscoli, que perduraria indefinidamente.
    Voltemos à música.

    Os cantores. Sylvinha Telles e Marisa "Gata Mansa" eram atrações freqüentes desde o final da década de 1950. Naquela época, Dolores Duran cantava quase diariamente no Little Club, onde, aliás, era alvo inconsciente da paixão muda do então garçom Alberico, depois proprietário da boate (não só do Little Club mas também do Bottle's Bar, e depois de vários outros estabelecimentos do ramo do lazer, como o Alberico's e o Plataforma). No Little Club, Dolores foi aplaudida certa vez pelo cantor francês Charles Aznavour, como tinha sido aplaudida no Baccara por Ella Fitzgerald. Dolores cantou no Little Club inclusive no dia de sua morte, em 1959.

    Na época do auge, além de Sylvinha e Marisa, apresentaram-se no Beco: Sérgio Ricardo, Alaíde Costa, Johnny Alf (de volta ao Rio após vários anos em São Paulo), Flora Purim, Sílvio César, Agostinho dos Santos, Dóris Monteiro e Claudete Soares, entre muitos outros.

    Entre os muitos outros estava Jorge Ben, que debutou no Beco em 1961. Tocou pandeiro no Little Club e depois cantou no Bottle's acompanhando-se ao violão. Passou meio despercebido e foi cantar rock na boate do hotel Plaza, na av. Princesa Isabel. Mas voltou em 1963, e aí foi pra valer. Acompanhado pelo Copa Cinco (Meireles no sax, Pedro Paulo no trompete, Toninho no piano, Manuel Gusmão no baixo e Dom Um na bateria), ele deslanchou com o sucesso das suas composições Mas que nada e Por causa de voxê, reforçado em 1964 por Chove chuva.

    Outra foi Nara Leão, que em janeiro de 1964 fez no Bottle's Bar sua segunda apresentação fora do seu famoso apartamento ou dos shows universitários. A tímida musa da Bossa Nova já tinha feito uma temporada no restaurante Au Bon Gourmet (av. Nossa Senhora de Copacabana, posto 2), estrelando a comédia musical Pobre menina rica, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. Não foi muito bem-sucedida. Já tinha também gravado um disco. Mas experiência proveitosa mesmo foi aquela temporada no Bottle's, que lhe deu coragem para empreender novas ousadias perante novas platéias, destacando-se o show Opinião, um ano depois.

    Mas cada época teve sua estrela máxima. Em 1961 e 62, por exemplo, quem reinava absoluta era Leny Andrade, com seus scats e be-bops bem ao gosto do público. Primeiro no Baccara e depois no Bottle's Bar. A voz e a mis-em-scène eram aperfeiçoadas pelos ensaios com Lennie Dale, que dirigia alguns shows e lapidava o talento de alguns alunos, e a quem o Beco das Garrafas devia muito da surpreendente qualidade de seus espetáculos.

    "Cresce, baby", era como Lennie Dale insistentemente ululava tentando edificar a presença de palco dos seus discípulos, durante suas aulas vespertinas no Bottle's Bar vazio. Antes de esse bailarino e coreógrafo ítalo-americano aparecer no Beco das Garrafas, em 1961, os shows só não eram um fiasco por causa da qualidade dos artistas e sua capacidade de improvisar e superar os imprevistos que a precariedade técnica ocasionava. Porque ensaio, isso ninguém fazia. A grande inovação introduzida por Lennie Dale foi o ensaio. Ensaio exaustivo. Obrigava o cantor, o conjunto e a equipe técnica a repetirem dezenas de vezes cada detalhe do show, até que entrasse na massa do sangue de cada um. E olha que ele inventava uns detalhes bem complicados, que requeriam precisos sincronismos entre som e luz, tipo um silêncio súbito seguido de uma retomada inesperada do som concomitantes com mudanças de cor, coisas assim.

    Lennie Dale era capaz de ensaiar artistas de qualquer espécie. Literalmente. Por exemplo, o show que ele próprio protagonizou no Bottle's. Ao cantar O pato (de Jaime Silva e Neuza Teixeira), Dale entrava em cena com um filhote de pato vivo dentro de uma fruteira. O comportamento do patinho naquele ambiente inóspito, enfumaçado e barulhento era tão sereno e compenetrado que só podia ter sido obtido por meio de ensaio, muito ensaio. Problema foi quando a temporada foi estendida, devido ao sucesso que fez. Uma das poucas coisas que Lennie Dale não podia conseguir do patinho era evitar que ele crescesse, deixando de caber na fruteira. Solução: substituir o pato por outro filhote, que, surpreendentemente, teve performance ainda melhor que a do antecessor. Ensaio, sem dúvida. Outro problema era não haver no Bottle's um camarim apropriado para aves. A solução foi recorrer à hospitalidade de uma freqüentadora muito cooperativa, a empresária do ramo musical Lídia Libion, cuja missão era pegar o pato tão logo terminasse o show e levá-lo para sua casa, na travessa Santa Leocádia (perto da rua Pompeu Loureiro), e no dia seguinte trazê-lo de volta minutos antes de sua entrada em cena.

    Na qualidade de coreógrafo, Lennie Dale procurou dar sua contribuição à Bossa Nova inventando para ela uma dança, que tentou implantar no Beco. Não vingou. Os homens a achavam excessivamente feminil e as mulheres empenavam com os contorcionismos que ela exigia. E o minúsculo palco do Bottle's mal a comportava. Paradoxalmente, a contribuição mais importante de Dale verificou-se no cantar. Sendo norte-americano, embora não cantor especialista, ele usava certas inflexões e floreios vocais que os cantores de Bossa Nova apreciavam, mas nunca tinham visto e ouvido tão de perto. Sua influência acabou por fazer com que todos os seus discípulos conseguissem cantar parecido com o que Johnny Alf fazia dez anos antes.

    Em 1963 e 64, o Beco foi conquistado por um novo discípulo de Lennie Dale: Wilson Simonal, que pouco antes cantava cha-cha-cha no Top Club, uma boate da praça do Lido. A Bossa Nova caiu-lhe como uma luva. Fez um sucesso extraordinário, com Lobo bobo (Carlos Lyra e Bôscoli), Telefone (Menescal e Bôscoli), Balanço zona sul (Tito Madi), Nanã (Moacir Santos e Mário Telles) e outras. Além de ter uma grande e afinada voz, Simonal brincava espetacularmente com o ritmo. O sucesso do seu jeito expansivo de cantar atraiu para a Bossa Nova outros cantores de voz forte, como Peri Ribeiro (outro aluno de Dale), aprofundando o a ruptura com a tradição intimista da bossa nova, que culminaria com Maria Bethânia em 1965, ao suceder Nara Leão no show Opinião.

    Mas antes de derreter sob o sol que veio da Bahia, o intimismo bossa-novista foi nocauteado por uma forte rajada de vento sul. Na verdade, um furacão. Pois um belo dia, em 1964, apareceu no Beco uma destemida gaúcha, baixinha, de dezenove anos, chamada Elis Regina. Tinha vindo ao Rio para se estabelecer, depois de ter conquistado Porto Alegre. A gravadora Philips já tinha promovido sua estréia carioca no programa Noite de gala, na TV Rio, e conseguiu que ela participasse como coadjuvante de um show no Bottle's protagonizado por Íris Lettieri e produzido por Renato Sérgio. Íris dizia poemas e Elis contraponteava cantando umas poucas músicas.

    Miele e Bôscoli, por essa época, tinham contrato de exclusividade com o empresário Abraão Medina para trabalhar no Rio 1800, casa noturna em Ipanema. Só conseguiam sair de lá (assim mesmo escondidos) às 22 horas, o que faziam quase todo dia, voando em seguida para o Beco. Trabalhavam no Beco de madrugada, de graça, infringindo uma ou outra cláusula do contrato com Medina. O Beco era sua paixão, que fazer? Viram Elis no show de Íris Lettieri e se entusiasmaram. Propuseram a ela estrelar um show montado por eles, o que, após alguma resistência, ela aceitou. Mais difícil foi convencer a desaforada Elis a só ensaiar depois das 22:30h. "Não sou palhaça!".

    Mas conseguiram. O show contou com a participação do Copa Trio (do baterista Dom Um Romão), da bailarina Marli Tavares e do pandeirista Gaguinho. Sucesso. Primeiro no Little Club, depois no Bottle's. Elis, a exemplo de Simonal, tinha excelente e afinadíssima voz e ótimo senso de divisão. Usava os pulmões sem a menor cerimônia e ainda acrescentava à sua interpretação um peculiar movimento de braços que lhe valeu o apelido de "Hélice" Regina e que foi aprovado por Lennie Dale, a quem também ela recorreu para se aperfeiçoar. Quem implicava era Ronaldo Bôscoli. Achava aquela "natação" ridícula era incompatível com a Bossa Nova, que já andava meio combalida com as freqüentes deturpações e desfigurações. Queixando-se a Miele, Bôscoli ouviu do parceiro: "Deixa, assim ela enterra a Bossa Nova de vez."

    Elis começou a se firmar no Beco. Estava no maior pique e virou atração. Jorginho Guinle, Samuel Wainer e o barão Stuckart (ex-dono do Vogue) topavam até sentar no chão para vê-la. Mas aconteceu que depois de algum tempo Elis começou a faltar aos shows. Sempre às sextas e aos sábados, casa lotada. O público se revoltava e Alberico enlouquecia. A desculpa de Elis era sempre a mesma: tinha ficado afônica. Até que Ronaldo Bôscoli soube que Elis andava se apresentando em São Paulo e no Paraná. Bôscoli primeiro deu-lhe uma senhora bronca. Na reincidência, mandou pintar uma tarja preta sobre o nome de Elis no cartaz do Bottle's. Aí deu briga. Feia. Tão feia que quem a assistisse jamais poderia supor que dali a três anos Ronaldo Bôscoli e Elis Regina estariam casados.

    Na verdade, Elis estava mesmo era de olho no promissor mercado paulista. Alaíde Costa e Claudete Soares já tinham migrado para São Paulo, e depois da briga Elis acabou fazendo o mesmo. Foi contratada pela TV Record e ascendeu rapidamente. Deu asas à sua voz e à sua "natação". Ganhou o I Festival da Música Popular Brasileira da TV Excélsior defendendo Arrastão (de Edu Lobo e Vinícius de Moraes), em 1965. Vingativa, sabotava cantores do Beco que tentavam se apresentar na TV Record. Como em São Paulo se ganhava muito mais, os cantores que tiveram de escolher abandonaram o Beco, que quase fechou. Foi por isso, aliás, que Miele estreou em palco, já que não havia mais estrelas. Miele e Bôscoli acabaram pedindo arrego a Elis. Fizeram as pazes com ela e foram eles próprios para São Paulo, para dirigir shows de uma música que já não era mais Bossa Nova, tinha agora o nome vago de MPB.

    Elis Regina realmente detonou a Bossa Nova. E o Beco das Garrafas nunca mais foi o mesmo.



Fontes:
Ruy Castro, Chega de saudade, Companhia das Letras, 1990; Joaquim Ferreira dos Santos, Antônio Maria, coleção Perfis do Rio, Relume-Dumará / RioArte, 1996; Regina Echeverria, Furacão Elis, Editorial Nórdica / Círculo do Livro, 1985; Luís Carlos Maciel e Ângela Chaves, Eles e eu ? memórias de Ronaldo Bôscoli, Nova Fronteira, 1994; Enciclopédia da música brasileira, Art Editora / Publifolha, 1998.



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