Esquecidos pela mídia e pouco conhecidos da maioria dos cariocas, Saúde, Gamboa e Santo Cristo foram os primeiros bairros da cidade a serem registrados, simultaneamente, em cd-rom e na Internet, através do projeto cultural CIRCUITO MAUÁ, que inaugurou a série CIRCUITOS DO RIO..

    A região que corresponde aos atuais bairros portuários cariocas teve papel fundamental na estruturação da malha urbana, identidade cultural e história popular da cidade do Rio de Janeiro. É um dos poucos locais da cidade onde o traçado urbano e as formas de uso residencial trazem, ainda hoje, a autenticidade do momento de sua produção. Seus caminhos sinuosos, suas muitas escadinhas, travessas, becos, adros, escadarias e ladeiras guardam mais de quatrocentos anos de história e são uma memória viva do "morar carioca".

    No final do século XVIII, a rua do Valongo - atual rua Camerino, no bairro da Saúde - passou a abrigar o mercado de compra e venda de escravos da cidade, o Cemitério dos Pretos Novos (onde eram enterrados em vala comum os negros que morriam no mercado), além dos escritórios de corretores envolvidos com a "mercadoria negra" e toda uma variedade de pequenos estabelecimentos voltados para a fabricação de objetos de ferro para tortura e aprisionamento. Mas, foi também ali na zona portuária que, depois da Abolição, as colônias de negros baianos e africanos constituíram a "Pequena África no Rio de Janeiro", um ambiente inesperadamente autônomo e peculiar, onde conseguiram afirmar sua liberdade e recriar sua cultura. A Pedra do Sal, localizada na base do morro da Conceição, a poucos metros da atual Praça Mauá, foi a sede mística desse renascimento, local de rituais e cultos religiosos, batuques e rodas de capoeira. Mais tarde, foi também ponto de encontro de sambistas e chorões, como João da Baiana, Donga e Pixinguinha.

    A região portuária foi palco privilegiado de importantes movimentos sindicais do início do século XX. Em 1904, a Revolta da Vacina, contra a vacinação obrigatória teve na Saúde a sua principal barricada. Seis anos mais tarde, eclode no porto do Rio a Revolta da Chibata, quando marinheiros se insurgem contra os castigos físicos da Marinha e ameaçam bombardear a cidade. Traídos pelo Governo, alguns dos líderes da Revolta foram fuzilados, outros presos e degredados. Seis décadas mais tarde, João Cândido, um dos líderes da revolta, foi homenageado por João Bosco e Aldir Blanc como "O Mestre-Sala dos Mares".

   Nos anos 40, era ainda a Praça Mauá que dominava o cenário carioca. A Praça era a porta de entrada de todas as novidades que vinham trazidas pelas ondas - as ondas marítimas em que chegavam os transatlânticos que atracavam no moderno porto do Rio e as ondas sonoras da Rádio Nacional que, do alto do edifício de "A Noite", o primeiro arranha-céu da cidade, encantavam verdadeiras multidões de ouvintes.