Na seção Caleidoscópio, o cd-rom CIRCUITO COPACABANA traz 24 visões temáticas do bairro, em textos da jornalista Ana Madureira de Pinho. São elas: Modismos, As turmas, Os cinemas, Política e poder, Contrastes e surpresas, Turismo, Gastronomia, Carnaval, Noite, Réveillon, Copacabana solar, Calçadão, Eterna Juventude, Os Copacabanenses, Alguns oásis, Copacabana Palace, Uma crônica: Copacabanas, Beleza, Morar em Copa, Musa inspiradora, As ruas, Música, Curiosidades, O Beira-mar. Você pode conhecer aqui mesmo algumas dessas visões, clicando sobre seu título, no parágrafo acima. As demais, só no cd-rom...
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1. Contrastes e surpresas
   Qual a melhor definição para a "cidade" de Copacabana no século XXI? Talvez seja a de que o bairro é o maior caleidoscópio de paisagens, tipos humanos e comportamentos do Rio de Janeiro e (sem qualquer exagero) do país.

   Copacabana é o bairro dos contrastes e surpresas: ainda conserva marcas do seu período áureo e endereços extremamente luxuosos e glamourosos; ao mesmo tempo, não deixa de exibir a sua faceta sombria e desconcertantemente decadente.

   Mesmo com todos os aspectos caóticos - é um típico bairro saturado em termos de infra-estrutura urbana -, Copacabana parece ter uma face extremamente humana. Talvez seja o bairro mais democrático do Rio, onde as diferenças encontraram alguma forma mágica de convivência.

   É o bairro tanto da aristocracia como das donas de casa "família" - típicas representantes da classe média brasileira - e ainda de uma legião de travestis, prostitutas, e diversos tipos de "excluídos". Copacabana serve ainda de cenário para o maior réveillon do mundo; é também dos turistas, dos pescadores, dos comerciantes, da terceira idade e do abandono de meninos de rua.

   Copa é assim: exposta, como uma ferida aberta, mas com o talento eterno de surpreender.


(texto da jonalista Ana Madureira de Pinho, redigido especialmente para o cd-rom Circuito Copacabana)

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2. Réveillon
   Réveillon em Copacabana: o céu e o mar, a beleza do calçadão, o frescor da brisa marinha. A Festa. Os fogos. A Fé.    No último dia de cada ano, a Princesinha do mar curva-se diante da Rainha das Águas. Réveillon em Copacabana é festa do povo, é festa de Iemanjá.

   As areias claras da praia de Copacabana servem como palco para uma comemoração que atrai pessoas de toda parte do mundo, de todos os credos e de todas as raças, para, com as bênçãos de Iemanjá, despedir-se de um ano que finda e saudar o novo ano que chega.

   Iemanjá, que é a mãe de todos os orixás no culto da umbanda e do candomblé e que, na tradição católica, é representada por N. Sra. da Glória, é a protetora das famílias, é quem traz a paz ao lar, é a Grande Mãe.

   Na umbanda e no candomblé, a bela Senhora das águas, Iemanjá, é reconhecida como a mãe dos orixás ao lado de Oxalá (Jesus Cristo), o pai. Os principais orixás cultuados no Rio de Janeiro são: Omolú, representado por São Lázaro; Ogum, o guerreiro São Jorge; Oxossi, representado por São Sebastião; Oxumaré, que vem como São Bartolomeu; Xangô, que é São Jerônimo; Iansã, a Santa Bárbara; Oxum, N. Sra. da Conceição; Nana, que é a Senhora Santana; e Ibeji, representado por São Cosme e Damião.

   Há, ainda, o Orixá Exu, que é erroneamente sincretizado, nos cultos cristãos, com a figura do demônio, mas, na verdade, representa a ponte entre o mundo físico e o espiritual, pois é o mensageiro dos Orixás, e nada na Terra é concretizado sem a sua concordância. Por ser um orixá de tal importância, é sempre o primeiro a ser louvado em qualquer ritual.

   Nas areias da praia de Copacabana, uma multidão assiste, embevecida; pessoas de todas as raças e lugares mostram respeito e subordinação à sua mãe. Por vezes, os orixás incorporam em filhos-de-santo presentes (a energia do Orixá assume a consciência corporal dos seus fiéis, que entram em transe) e participam da festa dançando, cantando e transmitindo energia. A festa reúne devotos de toda parte do país, que vêm cantar, brincar e dançar para Iemanjá.

   A Rainha das águas é muito vaidosa e gosta de receber presentes que simbolizem a sua feminilidade. Espelhos, pentes, jóias, perfumes, flores, comidas, frutas, bebidas, sabonetes, fotografias, cartas com pedidos enchem pequenos e grandes barcos, que são lançados mar adentro, para que ela possa recebê-los nas ondas.
   Os pais-de-santo prestigiam o evento e estão presentes com toda a sua comunidade. Todos vão vestidos como manda a tradição: cada santo ou orixá é representado por sua cor, pelas comidas e pelos objetos sagrados que carregam.

   O povo assiste em mescla de medo e fascínio. Todos, porém, dançam, cantam e colocam seus presentes na água do mar ao som dos atabaques e cantos afro. O mar... lindo e fascinante, mas que exige respeito, assim como a Grande Mãe que reina nas águas do mar e governa tudo que a ele está relacionado - peixes, crustáceos, estrelas, algas e também esse povo brasileiro. Faceiro, manhoso, que ama as águas do mar; que se deleita em suas areias sob o sol; que é risonho e hospitaleiro, mas que também exige respeito: afinal, dizem, Deus é brasileiro.

   Réveillon em Copacabana: o céu e o mar, a beleza do calçadão, o frescor da brisa marinha. A Festa. Os fogos. A Fé.


   (texto da pesquisadora Anneliese Schmidt, redigido especialmente para o cd-rom Circuito Copacabana)

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3. Copacabanas (uma crônica)
   Copacabana é um bairro como poucos. Famoso no mundo inteiro. Com várias famas. Objeto de desejo de muitos. Já foi princesinha. Hoje mais parece uma ex-amante de um ricaço falecido. É uma senhora que pinta os cabelos, se espreme em cintas e vai à praia de batom. Luta com elegância e discrição contra a decadência.

   Trocou as jóias por bijuterias. Recentemente resgatou do prego o seu colar de pérolas - o Copacabana Palace. Não teve a mesma sorte com seu camafeu - a Confeitaria Colombo. Os mais desatentos nem percebem o esforço que ela faz para pagar seu condomínio. Os mais pobres continuam recorrendo a ela. Afinal de contas, ela ainda está podendo. Seus pecados não mais escandalizam. Ninguém nem mais comenta a cirurgia plástica que lhe deu um amplo calçadão. Muito bonita. Ainda hoje, não há quem não se emocione perante seus olhos azuis - o mar. O seu álbum de família está cheio de gente de bem atestando que sua adolescência foi repleta de domicílios abastados, com janelas, janelões, varandas e varandinhas de onde se viam supermercados, lanchonetes, confeitarias, restaurantes, sapatarias, joalherias, floriculturas e hotéis. Era cheia de galerias comerciais e vitrines iluminadas. Daquele tempo ficaram os hotéis e as classudas portarias de mármore que hoje dividem as calçadas com um comércio bem mais chinfrim. Copacabana foi pioneira no shopping, mas foi justamente lá onde isto não vingou.

   Tem um jeitão de cansada. Deve ser porque não dorme nunca. Já não brinca mais nos coretos carnavalescos, nos banhos de mar à fantasia e nem na Festa de São João na areia. No dia de São Pedro, não serve mais peixada na Colônia de Pescadores, no Posto 6. Só se veste de festa no Réveillon - quando recebe milhares de pessoas com a maior desenvoltura.

   Adorava música. Sua filha mais famosa - a bossa nova, gestada no Beco das Garrafas, hoje mora no exterior e nem a visita. Copacabana não é mais proprietária das melhores boates da cidade. Seu remelexo, que continua seduzindo muito gente, já teve mais boêmia.


INCLUSIVA
   Copacabana é a preferida da terceira idade e trata com especial carinho seus velhos amigos. Para eles, tem até espaços exclusivos de convivência. No final da avenida Atlântica, na esquina da rua Joaquim Nabuco, floresce o Clube Cultural Recreativo do Posto 6, que congrega uns 300 senhores e senhoras com mais de 60 anos. Uns 20% são europeus moradores do bairro há décadas.

   No início, o clube não passava de um carteado entre conhecidos em mesinhas de cimento fixas na calçada. Depois, surgiram as mesinhas móveis e uma listinha para comprar uma lona. Nos anos 80, passou a ser uma área delimitada com grades, com um bar onde se vendem bebidas não alcóolicas, umas 10 mesas para jogos e um estatuto que prevê suspensão para quem não souber se comportar. Salvatore Virginolo, 74 anos, nascido em Nápoles, que diz que o Rio é a cidade mais linda do mundo, assíduo no clube há 30 anos, explica que a penalidade foi essencial para a harmonia do coletivo. "Como é um ambiente com jogo, um ou outro se exaltava", diz ele, ao registrar que foi só aplicar umas poucas suspensões para que não houvesse mais aborrecimentos. Na sede do Clube, de vez em quando, acontece um baile.

   A presença das mulheres no Clube é marcante - maioria até. Grupos de senhoras se encontram quase que diariamente para rir, comentar a vida, contar as peripécias dos filhos já cinqüentões e dos netos, e até jogar. Sara Medeiros, 84 anos, e Sirarpi Kiriktzian, 80 anos, viúvas, assíduas freqüentadoras do Clube, aproveitam esses encontros para marcar uns cinemas e uns almoços nos finais de semana com as amigas. Elas garantem que não há bairro melhor no mundo que Copacabana.

   Ainda no Posto 6, há um parque público dedicado à terceira idade. O Parque Sarah Kubitschek, na avenida Nossa Senhora de Copacabana n.º 1120, não é tão animado como o clube. É isolado do movimento da rua, tem área coberta, policiamento, mesas, banquinhos, telefone público, plantas ... e o melhor : uma vista para a fachada de dois lindos prédios típicos da Copacabana de antigamente. É quase como uma viagem no tempo. As janelas do edifício Andraus, o n.º 1102, são enfeitadas com persianas externas. Como na maioria dos edifícios do bairro, a portaria é ladeada pelo comércio. O de lá se chama Casa Valax. Um estabelecimento que tem quebra-galho e fecha no horário do almoço. O edifício n.º 1118 esbanja encantos através de varandas vazadas e janelinhas de madeira. Ë um monumento à corrente de ar.


PROFANA E SAGRADA
   Copacabana está sempre na moda. Afetada pela onda de carolice mundial que promove o milagre da multiplicação de igrejas e intolerâncias, recentemente doou parte do seu patrimônio para Jesus - na Galeria Alaska, não mais funcionam as mais famosas boates gays da cidade. No imponente corredor que começa em frente ao mar e acaba na avenida Nossa Senhora de Copacabana n º 1241, bem em frente a uma delegacia policial, hoje funciona um templo da Igreja Universal.

   Em compensação, no terreno vizinho à Paróquia da Nossa Senhora de Copacabana, na Hilário de Gouveia nº 36, existe um prédio do Metrô. Antigamente a paróquia ocupava os dois terrenos. A loja de esquina do prédio, fincada no solo que já foi santo, abriga hoje um sexshop bacana. Lá tem minúsculas cabines individuais indevassáveis para assistir a vídeos pornográficos, minúsculas cabines individuais envidraçadas, devassáveis da cintura para cima, para assistir a stripteases, e, se o cliente quiser investir um pouco mais, é possível contratar um personal striptease e assistir ao show confortavelmente sentado em uma cabine semi-indevassável. Só o/a artista fica sabendo quem o/a assiste por trás do vidro. O dono da loja, onde se perde a cabeça com pouco dinheiro, tem nome de santo: João Batista.

   Acometida pela especulação imobiliária, Copacabana é pródiga em prédios de apartamentos conjugados. O mais famoso entre eles, "o 200", localizado na rua Barata Ribeiro, pertinho da maior concentração de inferninhos do bairro, a rua Prado Junior, se notabilizou em acolher os trabalhadores e trabalhadoras do comércio sexual da rua Prado Júnior, a "PJ", e imediações. Atendendo aos anseios dos demais moradores que ganhavam a vida em outros ramos de atividades, um dia, o prédio resolveu melhorar a própria imagem, adotando regras moralizadoras quanto ao ingresso de não moradores nas suas dependências no horário noturno e "mudando de endereço" - de Rua Barata Ribeiro nº 200 passou a ser nº 194. Décadas passadas, o prédio ainda é conhecido como 200.


TURÍSTICA
   Assediada por muitos, Copacabana adquiriu a versatilidade necessária para receber qualquer um. Como o Rio de Janeiro é uma das 10 cidades do mundo que mais sediam congressos e simpósios internacionais, o turismo de Copacabana recebe muitos estrangeiros o ano inteiro. Copacabana também goza de bom conceito entre os turistas brasileiros.

   O bairro oferece casa, comida e roupa lavada de todos os tipos. É cheio de hotéis, apartamentos para temporada e ainda acolhe os mais desvalidos na areia da praia e debaixo das marquises. Copacabana tentou até não ser tão dadivosa e cercou com grades as suas praças para impedir o pouso noturno dos miseráveis. E como tem miseráveis. Todos dispostos a faturar, por bem ou por mal, em cima dos turistas.

   Na avenida Atlântica existem duas feirinhas dedicadas aos turistas. Uma na altura da Praça do Lido e outra na altura do Hotel Othon, na rua Xavier da Silveira. Vendem-se centenas de produtos tipo Brazil/Rio/Copacabana, especialmente camisetas com o nome da cidade e objetos com pedras brasileiras. No mesmo calçadão, "artistas" de todos os tipos buscam seduzir os turistas. A cultura nacional é apresentada em rodas de capoeira e por duplas musicais de cavaquinho e pandeiro, que "interpretam" trechos de sambas, nas fronteiras dos restaurantes.


PROSTITUTA
   Copacabana não perde o cheiro do pecado. Nos tempos em que o Rio era a capital federal causava furor com seu maillot de duas peças. Atualmente, seu modelito é "quase tudo de fora estampadinho de falso pudor". Bate pernas e pestanas de manhã, de tarde e de noite. Os esforços governamentais para coibir o turismo sexual moralizaram seus cartões de visita - nas bancas de jornais, os postais da Praia de Copacabana já não contêm bundas.

   A prostituição marca a vida noturna do bairro. Na avenida Atlântica chegou-se até a multar os motoristas que tumultuam o trânsito para negociar um "acordo feliz". Tem mulheres de todas as idades e modelos, inclusive menores. Tem um pouco de homossexuais masculinos e um quase nada de travestis. O horário do pico (com trocadilho, por favor) é noturno. Algumas dessas mulheres peregrinam da rua Prado Júnior e até a boate Help, na esquina com a rua Djalma Ulrich - os dois pólos de "pegação" do bairro. A sedução delas é menor que a dos motoristas de táxi, que fazem ponto nas imediações das boates. Eles ficam doidos ao ver clientes acompanhados de profissionais. Fazem questão de transportá-los, porque ganham gorjeta dos hotéis/motéis a cada casal entregue. Na Atlântica, nas imediações da Praça do Lido, encontram-se "taxistas de calçada", prospectando clientes para as boates da área.

   Muitas boates em Copacabana oferecem shows eróticos. Algumas incluem entre as atrações um número com mulatas sambando, trajadas de passistas. No intervalo entre os shows, mocinhas com os peitos de fora se revezam em tabladinhos, fazendo caras, bocas e trejeitos, popularizados há mais de 30 anos pelas chacretes e modernizados recentemente pelos grupos de axé music. O show quase sempre é uma moça do tabladinho vestida, dublando o último sucesso de uma cantora norte-americana, enquanto tira toda a roupa. A coreografia é semelhante à do tabladinho acrescida de umas fugazes poses ginecológicas. Tem boate que oferece também show de sexo ao vivo, de homem com mulher e até de mulher com mulher.



PERVERSA
   Na Copacabana turística se movimentam hotéis, bares, restaurantes, boates, taxistas, seguranças, prostitutas e muitas crianças, que, segundo elas próprias, vendem balas e engraxam sapatos. Algumas, vindas da Zona Oeste da cidade, da Baixada Fluminense e até de municípios mais distantes e outras, do próprio bairro. Nas encostas de Copacabana, como nas de quase todos os bairros da cidade, moram, com seus filhos, trabalhadores não qualificados marginalizados pelo mercado de trabalho. Copacabana tem favela na rua Euclides da Rocha, na Ladeira dos Tabajaras, nos morros dos Cabritos e do Cantagalo.

   São muitas as crianças que transitam na noite de Copacabana para arrumar um troco. Crianças que declararam não gostar de roubo. Admiram a profissão dos pilotos de avião, dos bombeiros, das professoras e dos mecânicos. Gostam do mar. Crianças que desenham árvores, casas, carros e barcos. As ilustrações deste texto foram feitas por algumas dessas crianças, na madrugada de uma quinta-feira, em março de 2002, no chão da calçada, em frente à boate Help. Crianças curiosas. Desconfiadas. Desenvoltas. "Moça, vai sair no jornal?" "Diz que o segurança daí bate na gente".

   Às vezes só, às vezes acompanhadas por algum irmão ou irmã, às vezes acompanhados da mãe e às vezes acompanhadas de uma "prima do colega do irmão do cunhado da vizinha". Entre as que já têm idade para ler e escrever, a maioria é alfabetizada. Trabalham desde?. Impossível saber. São tão crianças que não sabem contar tempo. Antes de trabalhar em Copacabana já trabalhavam em outro lugar. Acham que Copacabana é bonita, legal e "tem natureza".

   São mirradas. Até parecem que estão mentindo a idade. Crianças que brigam e que choram. Lépidas até altas horas da madrugada, são testemunhas e protagonistas do que há de pior em Copacabana. Várias vezes por dia são escorraçadas dos lugares. A linguagem politicamente correta é imprópria para descrevê-las. Todas são portadoras de necessidades especiais, sendo que algumas também são deficientes fisicamente.


RECOMENDADA
   Copacabana é CB - "sangue (com C !) bom", como dizia a marginália. É como todo mundo, cheia de virtudes e pecados. Eu, criada no bairro, ex-moradora de apartamentos conjugados, inclusive no 200, já coroa que nem Copacabana a recomendo. Graças a ela, ainda fecho os olhos quando o vento tem cheiro de maresia. Copacabana embriaga todos os sentidos.


   (texto da jonalista Analéa Rego, redigido especialmente para o cd-rom Circuito Copacabana)

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